Catalunha · sala de estar

Eu não sou daqui, marinheiro só…

Uma vez li que existe uma Barcelona pessoal para cada um que vive aqui. Talvez seja um pouco assim em qualquer lugar, mas é comum a gente avaliar a receptividade de um lugar e sua gente pela forma com que somos recebidos por eles. E em Barcelona isso não é necessário, em absoluto. A primeira frase que aprendi a dizer em catalão foi “M’agrada viure a Barcelona” (gosto de viver em Barcelona) e isso foi verdade desde o primeiro dia. A cidade é linda, andável e segura. E é possível disfrutá-la como se fosse a sua cidade mesmo sem falar o idioma e sem conhecer ninguém daqui. Tive amigos europeus, norte-americanos, sulamericanos, africanos e, como não, também catalães e espanhóis (faço a diferença, porque vivendo aqui é impossível não fazê-la, por mais que politicamente Catalunha seja Espanha). Sem entrar muito no tema da independência, é possível ser de Barcelona sem ter nascido aqui, tratar a cidade como sua, ser anfitrião, conhecer lugares fora do circuito turístico, enfim, aproveitar tudo de bom que a cidade pode oferecer, sem ter um grande grupo de amigos locais. Mesmo vivendo só entre estrangeiros, um não se sente em um gueto. Talvez seja porque na Espanha de modo geral, se vive muito na rua. Sempre há uma festa, um festival, algo que celebrar. E se não, são parques, terraças, praças, que são vivas e vividas igualmente por residentes e turistas. Na verdade, de olhar uma pessoa a seu lado na fila do paqui (lojinha de conveniência com horário de abertura extendido e produtos do mundo todo, em geral gestionados por pessoas de origem paquistanesa), do cinema, no parque infantil, falando outro idioma, é impossível saber se é um turista ou se mora aqui há dez anos. Por isso é comum que diante da mais mínima exitação em uma resposta, seu interlocutor que começou falando catalão mude em seguida para espanhol, ou mesmo para o inglês (depente mais da nacionalidade do emissor, não tanto da sua). Para mim, isso só deixou de ser divertido quando mudei para uma cidade menor e tive as meninas. Como sou casada com uma estrangeiro, nosso círculo de amigos e mesmo conhecidos locais se restringem aos pais do colégio e algum marido de amigas brasileiras. E bem, há mais dias em que me sinto uma outsider, que quando vivia em Barcelona. E isso que já vão cinco longos anos por essas paragens… Vivimos as tradições locais, mas a nosso modo. Vamos ver a cavalgada de Reis, mas depois os Reis não trouxeram presentes pras meninas. Não fomos a nenhuma comida de reis e pela primeira vez isso me deixou um pouco triste. Não sei se pensando na Ana, ou em mim mesma. Me senti isolada em um gueto em que está minha família e ponto. Que não é tão grave, a Ana quando perguntada que lhe trouxeram os Reis responde rápido a lista de coisas que recebeu na noite de Natal. Mas enfim, quanto mais dentro e participando da sociedade como membros ativos, mais fora me sinto.

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